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O LIVRO
Heróis Caipiras é um livro de memórias “romanceadas”, focadas a partir da década de 1960. Retrata as condições de vida de uma comunidade de colonos de Birigüi, SP, nos anos que precedem ao êxodo rural ocorrido na época, e acompanha a evolução da vida dessas pessoas depois no ambiente urbano. Composto por pequenas crônicas, contos e outros apontamentos, o livro resgata o imaginário do homem do campo, ao abordar crenças, costumes, valores, termos e expressões características do camponês e as diversões em geral. Revela também os contrastes existentes no encontro entre o homem do campo e o da cidade e descreve situações hilariantes do dia a dia, bem como os embaraços diante das novidades, ou seja, diante do progresso. Heróis Caipiras é uma redescoberta da cultura simples do campo, e como tal, o livro suscita discussões sobre o caipira e sua cultura, razão pela qual tem se somado à bibliografia para elaboração de monografias e de teses de mestrado de estudiosos em algumas áreas do conhecimento e é muito bem aceito por apreciadores da cultura caipira de todas as faixas etárias.
UM POUCO DE HISTÓRIA
A partir da instalação da ditadura militar em 1964, o êxodo rural ganhou um forte impulso no Brasil, especialmente nos estados de Minas Gerais, São Paulo e Paraná, regiões antes cafeeiras, e que apostara sem muito sucesso em outras culturas, o que levou muitos proprietários de terras à decadência, e à luta para desfazer o ônus da responsabilidade sobre a mão-de-obra contratada anteriormente em regime de colonato. Migrando para as cidades, as famílias vindas do campo conseguiram, de alguma forma, manter os laços de amizade que fora estabelecido ainda no campo, condição fundamental para a manutenção da identidade dessas famílias no novo e pouco conhecido ambiente.
Por ocasião de costumeiras visitas, ou encontros casuais, esses ex-colonos trocavam informações sobre a situação de cada conhecido e, como regra, gastavam boa parte do tempo relembrando fatos do passado então recente, o que tornava aquelas visitas muito prazerosas. Porém, com o passar dos anos, os mais velhos iam morrendo, diminuindo as fontes para a continuação do processo.
Foi preocupado com a possibilidade de perda dessa memória que iniciei o projeto Heróis Caipiras. Inicialmente, a coleta de informações, de coisas, casos e pessoas da época, além das que eu próprio guardara na condição de testemunha. Depois, a preparação de um livreto, que uma vez impresso, seria distribuído para que aquelas próprias pessoas tomassem conhecimento. E assim foi feito.
Ao tomarem conhecimento do material, houve uma grande manifestação de contentamento daquelas pessoas. Foi uma verdadeira redescoberta dos amigos. Foram telefonemas, encontros e reencontros, motivados pelo surgimento do “livro”, material que foi também objeto de admiração pelas gerações mais novas, pessoas que, nascidas já na cidade, apenas ouviam as histórias que os mais velhos contavam sobre a trajetória daquelas famílias quando vivendo no campo. Simultaneamente, percebi que muitas pessoas fora do círculo dos velhos amigos podiam também reconhecer naquele trabalho a “história” de sua própria família, ainda que em outro tempo e lugar. Foi só então que compreendi a dimensão daqueles relatos.
O caminho seguido até a publicação do livro foi realmente árduo. Para consolo deste autor, em 2004 o material acabou caindo em mãos do cineasta Anselmo Duarte, que manifestou-se no seguinte tom: “Gostei muito, tanto que li outra vez! E isto acontecerá com todos que lerem Heróis Caipiras”.
Em outro trecho da carta ele diz: “Quando comecei a ler Heróis Caipiras, relia com avidez as primeiras páginas, para satisfazer o meu encanto pela beleza da linguagem (...) usada para descrever ou dialogar os casos, de uma autenticidade incrível! Sentimos a presença dos personagens contando suas próprias histórias. Sim, estou encantado...”.
Com tantos votos a favor, eis pois Heróis caipiras.
LEITURA COMPLEMENTAR
Reforma Agrária e Êxodo Rural
Nos primeiros meses do governo militar, em 1964, a preocupação em dar uma resposta sobre a questão da terra em relação às demandas dos assalariados, parceiros, ocupantes e posseiros, e ainda, visando minimizar o peso político da oligarquia civil, foi aprovada a Emenda Constitucional No 10 em 9/11/64, que permitia a desapropriação da propriedade rural mediante indenização em títulos da dívida pública. Pouco depois, foi aprovado o Estatuto da Terra, com a promessa de melhor distribuição da terra mediante modificação no regime de sua posse, uso e propriedade, a fim de atender aos princípios de justiça social, e assegurava a todos a oportunidade de acesso à propriedade da terra, condicionado por sua função social.
De imediato, o IBRA – Instituto Brasileiro de Reforma Agrária – esteve empenhado em realizar o cadastramento dos imóveis rurais do país e em abril de 1966 foram aprovados os planos Nacional e Regionais de Reforma Agrária, que enfatizavam o zoneamento, o cadrastamento e indicações de áreas prioritárias para a Reforma Agrária, medidas assas que não tiveram conseqüências objetivas em termos de desapropriações e assentamentos. Em 1970, o IBRA foi substituído pelo INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, que acabou direcionando suas ações para a colonização da Amazônia, concentrando esforços também na regularização e emissão de títulos de propriedade a ocupantes de grandes extensões de terras do Estado, os chamados grileiros.
De qualquer forma, acuados pela legislação estavam os proprietários de terras, procurando demonstrar que suas propriedades não estavam ociosas. Não obstante as dificuldades para obterem preços condizentes para seus produtos no mercado, conviviam agora inflação crescente, juros altos para o financiamento agrícola e responsabilidades trabalhistas, pois é nesse período que é instituído o FUNRURAL – Fundo de Assistência e Previdência do Trabalhador Rural, órgão equivalente à CLT para os trabalhadores rurais.
E é bom lembrar também, que João Goulart, às vésperas de sua deposição da presidência do Brasil, assinara um decreto que permitia a desapropriação, para fins de reforma agrária, de áreas de propriedades, situadas às margens de rodovias e de ferrovias federais, e é interessante que, no mesmo período, começam a ocorrer grandes incêndios no Estado do Paraná, que , não obstante a estiagem ocorrida naquele ano, contavam também com ações de “sem-terras” pressionando para tentar garantir o seu pedaço de chão, fato este muito presente na memória das pessoas que testemunharam o fato.
Diante de circunstâncias tão alarmantes, os proprietários de latifúndios optaram pelo abandono do cultivo agrícola, pela dispensa de seus trabalhadores e pela adesão à pecuária, que se revelava uma atividade menos arriscada. A conseqüência direta desse processo foi o aprofundamento do êxodo rural e o inchamento das cidades, criando enormes dificuldades de sobrevivência para os lavradores e mesmo para os pequenos proprietários, que tiveram de buscar refúgio no ambiente urbano.
Como se pode concluir, a reforma agrária, que nunca existiu, acabou influenciando significativamente para as transformações ocorridas no país a partir da década de 1960, e como sempre acontece, as pessoas que dispunham apenas da força de seus braços para a sua sobrevivência levaram a pior.
O contexto acima está retratado na segunda metade do livro Heróis Caipiras. Ofuscada por casos bem-humorados, há a indicação de como o regime militar foi brutal para com o homem do campo –proprietários ou não- usando apenas a caneta como arma.
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